Tradução do grego para o português por Luiz Antonio de Azevedo, dedicado à D. João VI. Publicação do INP em 1920.
VERSOS DE OURO
de
P Y T H A G O R A S
Honra primeiramente os Deozes immortaes,
conforme o grao de preminencia, que tem des-
tinado a Lei ás suas jerarquias.
Respeita com egual observancia o Juramen-
to: depois venera os Heroes cheios de bonda-
de, e de luz.
Rende tambem esta mesma veneração aos
Demônios subterraneos, dando-lhes o culto, que
legitimamente lhes é devido.
Honra com semelhante obsequio a teo Pae,
e a tua Mãe, e aos teos parentes mais chega-
dos.
Entre a multidão dos outros homens tu com
a tua virtude faze-te amigo de todo aquelle,
que por ella mais se distingue.
Cede sempre ás suas brandas advertencias
e relevantes acções.
E não te ponhas logo por qualquer leve fal-
ta mal com teo amigo,
Em quanto puderes; porque o poder mora
junto da necessidade.
Sabe pois que assim te incumbe observar es-
tes preceitos; mas vae contrahindo habito de
vencer as paixões.
E primeiro que tudo a da gula, e do somno;
tambem a da concupiscencia.
E da ira. Nem jamais comettas acção algu-
ma torpe, nem com outrem,
Nem constigo so em particular; e sobre tudo
peja-te de ti mesmo.
Em consequencia disto, assim nas tuas acções,
como nas tuas palavras, costuma-te a praticar a justiça.
E a te não portares em cousa alguma com
imprudencia.
Mas faze sempre esta reflexão, que decreta-
do esta pelo Fado a todos morrer:
E que os bens da fortuna se cstumam effe-
ctivamente umas vezes adquirir, outras perder.
No tocante ao grande número de miserias
da vida, que os mortaes padecem por Divina
fortuna,
Ja que é força te caiba dellas por sorte al-
guma parte, soffre-as todas com animo resigna-
do, e não te mostres impaciente.
O que porem te importa fazer, é sanear a
quebra dessas dessas desventuras, quanto estiver na
tua mão; e nestes termos considera:
Que o Fado nem isso permitte que sobre as
pessoas de bem venha grande tropel destas
calamidades.
Ora ouvem-se fazer entre os homens muitos
discursos, uns bons, outros maos:
Por cuja causa, nem te acovardes no exer-
cicio da virtude, nem te deixes acaso
Apartar do teo modo de viver; mas se por
ventura se proferir alguma falsa proposição,
Arma-te de paciencia, usando com todos de
brandura. Cumpre á risca em tudo e por tudo
com a maxima que te vou ja inculcar:
Ninguem te arraste, nem por palavra, nem
por obra de modo algum,
A fazer, ou dizer o que não é conveniente.
Consulta e delibera sempre antes de obrar,
para que não chegues a pôr em execução al-
gumas acções ineptas, e temerarias.
Por quanto é de homem estolidamente des-
graçado não so obrar, senão tambem falar sem
tento, nem consideração.
Mas tu effectua sim antes cousas taes, que
ao depois, te não sirvam de tormento.
E não te mettas a fazer cousa alguma das
quaes não sabes; mas aprende
Tudo quanto cumpre saber, e deste modo
passarás uma vida mui alegre, e deleitosa.
Nem é justo, quanto ao penso do corpo, ha-
ver descuido na conservação da saude delle;
Mas importa guardar uma justa mediania tan-
to no beber, como no comer, e nos exercicios.
Dou pois o nome de mediania a tudo aqui-
llo, que te não cauzar molestia, nem afflicção.
Costuma-te por isso a ter um tratamento a-
ceado sim e decente, mas sem delicadeza nem
luxo.
E guarda-te muito de fazer qualquer daque-
llas acções, que trazem comsigo a reprehensão
e vituperio de todos os homens.
Não faças gastos fora de tempo, como quem
está muito alheio do decoro;
Nem tão pouco sejas mesquinho. Por onde a
medianía em todas as cousas é optima.
Assim faze so aquellas cousas, que te
não prejudicarem, e considera-as bem, antes
de as pores por obra.
Nem dês entrada ao somno em teos langui-
dos e cançados olhos,
Senão depois de examinares a cosnciencia,
discorrendo por cada uma das acções daquelle
dia:
Em que materia transgredi? E que fiz eo ?
Que obrigação indispensavel deixou de ser por
mim cumprida?
E começando desde a primeira, continua com
o exame até á ultima de tuas acções; e de-
pois
No caso que tenhas obrado mal, reprehende-
te ; e se bem, regojiza-te.
Nestas cousas trabalha, nestas medita, nes-
tas convem que empregues o teo amor.
Todas ellas te sublimarão a dirigir teos pa-
ssos pelos vestigios da virtude Divina.
Sim, eo to affirmo e juro por aquelle, que
deo à nossa alma o conhecimento do Quater-
nario,
Fonte de succeciva natureza. Mas põe so
mãos a esta grande obra.
Depois de teres pedido aos Deozes que te
ajudem a levar ao fim o que vás emprehen-
der. Tendo-te ja previnido e corroborado com
estes requisitos,
Conhecerás tanto dos Deozes immortaes, co-
mo dos homens mortaes
A jerarquia, até onde não so cada um dos
mencionados Entes se extende, mas ainda até
onde se limita.
Conhecerás tambem, segundo a lei do Deos
spremo, ser em tudo analodga a natureza;
De maneira que nem tu virás a conceber es-
perança do que não é para esperar, nem para
ti será incognita cousa alguma deste mundo.
Conhecerás egualmente que os homens pa-
decem os males, a que estão sujeitos, por sua
própria escolha,
Desgraçados homens, que não reparam nos
bens, que teem á mão,
Nem ouvidos lhe querem dar; e assim pou-
cos chegam a saber livrarem-se de seos males.
Tal é a sorte, que cega os entendimentos dos
mortaes; que por isso elles á maneira de cy-
lindros,
Rodam de uns para outros vicios, padecen-
do calamidades sem fim.
Porquanto aquelle pernicioso combate, que a
todos acompanha, e com todo nasce, é o mes-
mo, que sem elles por isso attentarem, os traz
infatuados e perdidos:
Combate, que não convem atiçar, mas sim
cada um fugir delle, cedendo á razão.
De quantos males por certo livrarias, ó Ju-
piter, Pae Soberano, a todos os homens,
No caso que a todos fizesses conhecer de
que Demônio elles se servem!
Tu porem cobra grande animo, visto ser Di-
vina a prosapia dos mortaes,
A quem a sagrada Natureza, infundindo-lhas,
manifesta cada uma das cousas respectivas ao
proprio conhecimento.
Das quaes se de algum modo te achas par-
ticipante, chegarás a conseguir o pretendido
fim das maximas que te prescrevo,
Depois de teres curado a indisposição das
paixões, e livrarás a tua alma de todos os tra-
balhos, e molestias.
Mas abstem-te dos manjares, que nós temos
Prohibido tanto nas purificações,
Como no livramento da alma, discernindo en-
tre uns e outros; e pondera bem cada um dês-
tes preceitos,
Constituindo a razão mais adequada por co-
cheiro, para ter da parte superior as redeas á
carreira da tua vida.
E se depois de te veres ja despojado do cor-
po, chegares á pura Região do ethereo assen-
to,
Serás um Deos immortal, incorruptivel, e
nunca mais sujeito dahi por deante á jurisdi-
cção da morte.
Fim dos Versos de Ouro de Pythagoras.
Tradução do grego para o português por Luiz Antonio de Azevedo, dedicado à D. João VI. Publicação do INP em 1920.
| Navegue pelos artigos | |
Versos de Ouro de Pitágoras - Tradução Fabre d`Olivet
|
Versos de Ouro de Pitágoras - Tradução de Dario Vellozo
|




