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Versos de Ouro de Pitágoras - Tradução de Luiz Antonio de Azevedo
Publicado por Administrador em 07/02/2010 (363 leituras)

Tradução do grego para o português por Luiz Antonio de Azevedo, dedicado à D. João VI. Publicação do INP em 1920.



VERSOS DE OURO

de

P Y T H A G O R A S

 

 

 

Honra primeiramente os Deozes immortaes,

conforme o grao de preminencia, que tem des-

tinado a Lei ás suas jerarquias.

            Respeita com egual observancia o Juramen-

to: depois venera os Heroes cheios de bonda-

de, e de luz.

            Rende tambem esta mesma veneração aos

Demônios subterraneos, dando-lhes o culto, que

legitimamente lhes é devido.

            Honra com semelhante obsequio a teo Pae,

e a tua Mãe, e aos teos parentes mais chega-

dos.

            Entre a multidão dos outros homens tu com

 a tua virtude faze-te amigo de todo aquelle,

que por ella mais se distingue.

            Cede sempre ás suas brandas advertencias

e relevantes acções.

            E não te ponhas logo por qualquer leve fal-

ta mal com teo amigo,

            Em quanto puderes; porque o poder mora

junto da necessidade.

            Sabe pois que assim te incumbe observar es-

tes preceitos; mas vae contrahindo habito de

vencer as paixões.

            E primeiro que tudo a da gula, e do somno;

tambem a da concupiscencia.

            E da ira. Nem jamais comettas acção algu-

ma torpe, nem com outrem,

            Nem constigo so em particular; e sobre tudo

peja-te de ti mesmo.

            Em consequencia disto, assim nas tuas acções,

como nas tuas palavras, costuma-te a praticar a justiça.

            E a te não portares em cousa alguma com

imprudencia.

            Mas faze sempre esta reflexão, que decreta-

do esta pelo Fado a todos morrer:

            E que os bens da fortuna se cstumam effe-

ctivamente umas vezes adquirir, outras perder.

            No tocante ao grande número de miserias

da vida, que os mortaes padecem por Divina

fortuna,

            Ja que é força te caiba dellas por sorte al-

guma parte, soffre-as todas com animo resigna-

do, e não te mostres impaciente.

            O que porem te importa fazer, é sanear a

quebra dessas dessas desventuras, quanto estiver na

tua mão; e nestes termos considera:

            Que o Fado nem isso permitte que sobre as

pessoas de bem venha grande tropel destas

calamidades.

            Ora ouvem-se fazer entre os homens muitos

discursos, uns bons, outros maos:       

Por cuja causa, nem te acovardes no exer-

cicio da virtude, nem te deixes acaso

            Apartar do teo modo de viver; mas se por

ventura se proferir alguma falsa proposição,

            Arma-te de paciencia, usando com todos de

brandura. Cumpre á risca em tudo e por tudo

com a maxima que te vou ja inculcar:

            Ninguem te arraste, nem por palavra, nem

por obra de modo algum,

            A fazer, ou dizer o que não é conveniente.

            Consulta e delibera sempre antes de obrar,

para que não chegues a pôr em execução al-

gumas acções ineptas, e temerarias.

            Por quanto é de homem estolidamente des-

graçado não so obrar, senão tambem falar sem

tento, nem consideração.

            Mas tu effectua sim antes cousas taes, que

ao depois, te não sirvam de tormento.

            E não te mettas a fazer cousa alguma das

quaes  não sabes; mas aprende

            Tudo quanto cumpre saber, e deste modo

passarás uma vida mui alegre, e deleitosa.

            Nem é justo, quanto ao penso do corpo, ha-

ver  descuido na conservação da saude delle;

            Mas importa guardar uma justa mediania tan-

to no beber, como no comer, e nos exercicios.

            Dou pois o nome de mediania a tudo aqui-

llo, que te não cauzar molestia, nem afflicção.

            Costuma-te por isso a ter um tratamento a-

ceado sim e decente, mas sem delicadeza nem

luxo.

            E guarda-te muito de fazer qualquer daque-

llas acções, que trazem comsigo a reprehensão

e vituperio de todos os homens.

            Não faças gastos fora de tempo, como quem

está  muito alheio do decoro;

            Nem tão pouco sejas mesquinho. Por onde a

medianía em todas as cousas é optima.

            Assim faze so aquellas cousas, que te

não prejudicarem, e considera-as bem, antes

de as pores por obra.

            Nem dês entrada ao somno em teos langui-

dos e cançados olhos,

            Senão depois de examinares a cosnciencia,

discorrendo por cada uma das acções daquelle

dia:

            Em que materia transgredi? E que fiz eo ?

Que obrigação indispensavel  deixou de ser por

mim cumprida?

            E começando desde a primeira, continua com

o exame até á ultima de tuas acções; e de-

pois

            No caso que tenhas obrado mal, reprehende-

te ; e se bem, regojiza-te.

            Nestas cousas trabalha, nestas medita, nes-

tas convem que empregues o teo amor.

            Todas ellas te sublimarão a dirigir teos pa-

ssos pelos vestigios da virtude Divina.

            Sim, eo to affirmo e juro por aquelle, que

deo à nossa alma o conhecimento do Quater-

nario,

            Fonte de succeciva natureza. Mas põe so

mãos a esta grande obra.

            Depois de teres pedido aos Deozes que te

ajudem a levar ao fim o que vás emprehen-

der. Tendo-te ja previnido e corroborado com

estes requisitos,

            Conhecerás tanto dos Deozes immortaes, co-

mo dos homens mortaes

            A jerarquia, até onde não so cada um dos

mencionados Entes se extende, mas ainda até

onde se limita.

            Conhecerás tambem, segundo a lei do Deos

spremo, ser em tudo analodga a natureza;

            De maneira que nem tu virás a conceber es-

perança do que não é para esperar, nem para

ti será incognita cousa alguma deste mundo.

            Conhecerás egualmente que os homens pa-

decem os males, a que estão sujeitos, por sua

própria escolha,

            Desgraçados homens, que não reparam nos

bens, que teem á mão,

            Nem ouvidos lhe querem dar; e assim pou-

cos chegam a saber livrarem-se de seos males.

            Tal é a sorte, que cega os entendimentos dos

mortaes; que por isso elles á maneira de cy-

lindros,

            Rodam de uns para outros vicios, padecen-

do calamidades sem fim.

            Porquanto aquelle pernicioso combate, que a

todos acompanha, e com todo nasce, é o mes-

mo, que sem elles por isso attentarem, os traz

infatuados e perdidos:

            Combate, que não convem atiçar, mas sim

cada um fugir delle, cedendo á razão.

            De quantos males por certo livrarias, ó Ju-

piter, Pae Soberano, a todos os homens,

            No caso que a todos fizesses conhecer de

que Demônio elles se servem!

            Tu porem cobra grande animo, visto ser Di-

vina a prosapia dos mortaes,

            A quem a sagrada Natureza, infundindo-lhas,

manifesta cada uma das cousas respectivas ao

proprio conhecimento.

            Das quaes se de algum modo te achas par-

ticipante, chegarás a conseguir o pretendido

fim das maximas que te prescrevo,

Depois de teres curado a indisposição das

paixões, e livrarás a tua alma de todos os tra-

balhos, e molestias.

            Mas abstem-te dos manjares, que nós temos

Prohibido tanto nas purificações,

            Como no livramento da alma, discernindo en-

tre uns e outros; e pondera bem cada um dês-

tes preceitos,

            Constituindo a razão mais adequada por co-

cheiro, para ter da parte superior as redeas á

carreira da tua vida.

            E se depois de te veres ja despojado do cor-

po, chegares á pura Região do ethereo assen-

to,

            Serás um Deos immortal, incorruptivel, e

nunca mais sujeito dahi por deante á jurisdi-

cção da morte.

 

            Fim dos Versos de Ouro de Pythagoras.

 

 

 

 

Tradução do grego para o português por Luiz Antonio de Azevedo, dedicado à D. João VI. Publicação do INP em 1920.

 

 

 

 

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