Versos de Ouro - Tradução de Dario Vellozo

26 abril 2014
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VERSOS DE OURO

 Tradução de Dario Vellozo,

do original francês de Fabre d’Olivet

PREPARAÇÃO

Aos Deuses imortais o culto consagrado

Rende; e tua fé conserva. Prestigia

Dos sublimes Heróis a imárcida lembrança

E a memória eteral dos supernos Espíritos.

PURIFICAÇÃO

 Bom filho, reto irmão, terno esposo e bom pai

Sê; e para amigo o amigo da virtude

Escolhe, e cede sempre a seus dóceis conselhos;

Segue de sua vida os trâmites serenos;

Sê sincero e bondoso, e não o deixes nunca,

Se possível te for; pois uma lei severa

Agrilhoa o Poder junto à Necessidade.

Está em tuas mãos combater e vencer

Tuas loucas paixões; aprende a dominá-las.

Sê sóbrio, ativo e casto; as cóleras evita.

Em público, ou só, não te permitas nunca

O mal; e mais que tudo a ti mesmo respeita-te.

Pensa antes de falar, pensa antes de agir;

Sê justo. Rememora: um poder invencível

Ordena de morrer; e os bens e as honrarias,

Fáceis de adquirir, são fáceis de perder.

Quanto aos males fatais que o Destino acarreta,

Julga-os pelo que são: suporta-os, procura,

Quão possível te seja, o rigor abrandar-lhes.

Os Deuses, aos mais cruéis, não entregam os sábios.

Como a Verdade, o Erro adoradores conta.

O filósofo aprova, ou adverte com calma.

E, se o Erro triunfa, ele se afasta, e espera.

Ouve, e no coração grava as minhas palavras;

Fecha os olhos e o ouvido a toda prevenção;

Teme o exemplo de um outro, e pensa por ti mesmo:

Consulta, delibera e escolhe livremente.

Deixa aos loucos o agir sem um fim e sem causa;

Tu deves contemplar no presente o futuro.

Não pretendas fazer aquilo que não saibas.

Aprende: tudo cede à constância e ao tempo.

Cuida em tua saúde: e ministra com método,

Alimentos ao corpo e repouso ao espírito.

Pouco ou muito cuidar evita sempre; o zelo

Igualmente se prende a um e a outro excesso.

Têm o luxo e a avareza efeitos semelhantes.

Deves buscar em tudo o meio justo e bom.

PERFEIÇÃO

Que não se passe um dia, amigo, sem buscares

Saber: Que fiz eu hoje? E, hoje, que olvidei?

Se foi o mal, abstém-te; e, se o bem, persevera.

Meus conselhos medita; e os estima; e os pratica:

E te conduzirão às divinas virtudes.

Por esse que gravou em nossos corações

A Tétrade sagrada, imenso e puro símbolo,

Fonte da Natureza, e modelo dos Deuses,

Juro. Antes, porém, que a tua alma, fiel

A seu dever, invoque, e com fervor, os Deuses,

Cujo socorro imenso, valioso e forte

Te fará concluir as obras começadas,

Segue-lhes o ensino, e não te iludirás:

Dos seres sondarás a mais estranha essência;

Conhecerás de Tudo o princípio e o termo.

E, se o Céu permitir, saberás que a Natura,

Em tudo semelhante, é a mesma em toda parte.

Conhecedor assim de todos teus direitos.

Terás o coração livre de vãos desejos,

E saberás que o mal que aos homens cilicia,

De seu querer é fruto; e que esses infelizes

Procuram longe os bens cuja fonte em si trazem.

Seres que saibam ser ditosos, são mui raros.

Joguetes das paixões, oscilando nas vagas,

Rolam, cegos, num mar sem bordas e sem termo,

Sem poder resistir nem ceder à tormenta.

Salvai-os, grande Zeus, abrindo-lhes os olhos!

Mas, não: aos Homens cabe, – eles, raça divina-,

O Erro discernir, e saber a Verdade.

A Natureza os serve. E tu que a penetraste,

Homem sábio e ditoso, a paz seja contigo!

Observa minhas leis, abstém-te das coisas

Que tua alma receie, em distinguindo-as bem;

Sobre teu corpo reine e brilhe a Inteligência,

Para que, te ascendendo ao Eiter fulgurante,

Mesmo entre os Imortais, consigas ser um Deus!

 

 

 


 

 

Trecho da Obra “Hôrto de Lísis“, de Dario Vellozo; publicada pelo I.N.P. em Obras I, p. 94, 1969.

Os Versos Áureos constituem a relíquia mais autêntica da famosa Escola de Crótona.

Escritos por Lísis, sob a inspiração do Mestre, cristalizam a moral pitagórica, nítida, superna, humaníssima.

“Esses Versos, chamados dourados, – diz Fabre d’Olivet, – encerram os sentimentos de Pitágoras, e são tudo que nos resta de verdadeiramente autêntico a respeito de um dos maiores homens da antigüidade. Hierocles que no-los transmitiu com um longo e sábio Comentário, garante não conterem, como se o poderia supor, o sentir de uma pessoa, mas a doutrina de todo o corpo sagrado dos Pitagóricos, o eco de todas as assembléias. Acrescenta, existia uma lei que ordenava a cada qual, todas as manhãs, ao levantar, e todas as noites, ao deitar-se, a leitura desses versos, como em sendo os oráculos da escola pitagórica”.

De magna importância a interpretação desse Código, tábua de esmeralda em que se gravaram os princípios do filósofo de Samos, ouro de idéias, síntese da ciência da alma, esplendor do Verdadeiro, do Belo e do Bem, castália de águas límpidas a desalterar todas as sedes, ramo de acácia estendido sobre as angústias das inteligências.

Os comentários de Hierocles e Fabre d’Olivet esparzem discreta luz nas linhas do ritual de Lísis, aclarando os magnânimos intuitos da Escola Pitagórica. À sua sombra acolhedora bem se poderiam reunir os humanos, fraternalmente congregados para a prática das Virtudes, estirpadas do coração as urzes dos maus sentimentos.

Seriam bem mais claros e confortáveis os dias da humanidade, se a música dos Versos Dourados fosse ouvida e fosse ouvida a persuasiva harmonia do Templo das Musas.

 


 

 

 

 

 

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